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Ensaio sobre a Estrutura Vivida
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978-85-7241-859-1
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Ensaio sobre a Estrutura Vivida

Messas, Guilherme

Ciente de que o passado recebe seu sentido a partir da perspectiva de um pensamento presente em ato, o ensaio de Guilherme Messas sobre a estrutura vivida põe a funcionar, em si e em seus leitores, uma orquestra de múltiplas tradições. Além das explícitas referências feitas a Jaspers, Minkowski, Binswanger e outros nomes diretamente ligados à psicopatologia fenômeno-estrutural, o autor ainda menciona, de modo tão hábil quanto parcimonioso, uma pequena plêiade de interlocutores filosóficos, cujos nomes por vezes transparecem discretamente em adjetivos ou advérbios – como Kant e Hegel – e, por outras, são abertamente mencionados, como Nietzsche, Husserl e Heidegger. Todavia, não será essa linhagem predominantemente germânica a que tomarei por fio condutor ao tecer algumas breves considerações sobre este livro tão belo quanto útil. A fim de eleger apenas uma dentre as inúmeras qualidades distintivas do trabalho de Messas, eu notaria, preferencialmente, seu diálogo com uma outra tradição filosófica, talvez menos frequente – dado seu caráter vetusto – nos debates científicos em que hoje prepondera o gosto pelo mais recente. Refiro-me, pois, à tradição grega. E conquanto essa tradição de fato seja, em sentido estrito, antiga, ela continua sendo, no entanto, de uma atualíssima antiguidade. Diversamente do verniz erudito, que permanece extrínseco aos argumentos, essa tradição comparece aqui como pano de fundo capaz de revelar, por contraste, os pressupostos epistemiológicos da pretensamente neutra psicopatologia dos manuais. Em harmonia com a observação diligente das singularidades concretas e com uma programática desconfiança contra as generalizações, o que o paradigma antigo vem aqui ensinar é, isto sim, o primado das relações de proporção como alternativa à hegemonia das classificações universais e abstratas. Nesse quadro teórico, o próprio discernimento entre o saudável e o patológico se faz em termos de uma distinção entre, respectivamente, um devir pessoal que não se deixa paralisar e um enrijecimento que compromete a aptidão do indivíduo para a multiplicidade simultânea (o espaço) e sucessiva (o tempo). Ora, assim sendo, a estabilidade do objeto, que é uma condição epistêmica incontornável, poderia coincidir, no caso do conhecimento da vida psíquica, com a caracterização mesma da doença, de sorte que o psiquismo saudável, que não se fixa em nenhuma forma definitiva, tornar-se-ia incognoscível.

A busca da solução para esse paradoxo é uma das principais linhas de força do presente ensaio, que, para tanto, reencontra certas noções de estabilidade dinâmica ou de dinamismo estável, caudatárias justamente da reflexão da antiguidade sobre a saúde e a doença.

 

Cristiano Novaes de Rezende Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

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